
Todo país precisa financiar sua economia.
Precisa de bancos.
Investimentos.
Mercados de capitais.
Reservas internacionais.
Crédito externo.
Tecnologia.
Comércio.
Por isso, política externa é também política financeira.
Uma maior aproximação com Washington pode facilitar determinadas relações econômicas e institucionais com o sistema ocidental.
Uma maior aproximação com Pequim pode ampliar investimentos, comércio e infraestrutura relacionados à China.
Uma presença ativa no BRICS pode proporcionar ao Brasil maior capacidade de diversificação.
Nenhuma dessas opções é gratuita.
Toda escolha cria oportunidades e dependências.
A arte da política externa brasileira historicamente consistiu justamente em evitar dependência absoluta de qualquer polo.
É o princípio da autonomia pela diversificação.
O Brasil não pode simplesmente analisar a China como uma questão ideológica.
Ela é uma realidade econômica.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos não podem ser tratados apenas como uma potência concorrente.
Continuam sendo um parceiro econômico, financeiro, tecnológico e estratégico fundamental.
É precisamente essa dupla dependência que transforma o Brasil em um território particularmente importante na competição sino-americana.
Washington observa a expansão chinesa na América Latina.
Pequim observa as tentativas americanas de reconstruir influência hemisférica.
Brasília tenta extrair benefícios dos dois lados sem perder autonomia.
Essa é uma posição extremamente valiosa.
E extremamente desconfortável.
Quando um candidato defende a saída brasileira do BRICS, a questão não é simplesmente comercial.
O Brasil poderia continuar negociando com China, Índia ou outros países mesmo fora do agrupamento.
A questão real é institucional.
Sair do BRICS alteraria a posição do Brasil dentro de uma das principais plataformas criadas pelas potências emergentes para ampliar sua influência na ordem internacional.
Da mesma maneira, permanecer e aprofundar a integração no BRICS não significa automaticamente abandonar os Estados Unidos.
A disputa é sobre grau de alinhamento.
Sobre autonomia.
Sobre dependência.
Sobre acesso.
Sobre arquitetura.
É comum observar a política brasileira como disputa entre esquerda e direita.
Essa divisão existe.
Mas ela é incompleta.
Por trás de partidos existem coalizões econômicas.
Agronegócio.
Indústria.
Sistema financeiro.
Empresas estatais.
Construção civil.
Mineração.
Tecnologia.
Fundos.
Investidores estrangeiros.
Servidores públicos.
Governadores.
Prefeitos.
Sindicatos.
Bancos públicos.
Mercado de capitais.
Cada setor possui preferências diferentes em relação a:
juros;
câmbio;
tributação;
gasto público;
crédito;
privatizações;
regulação;
relações trabalhistas;
política industrial;
China;
Estados Unidos;
Mercosul;
BRICS.
É assim que sistema financeiro e sistema partidário se conectam.
Nem sempre através de ordens explícitas.
Frequentemente através de interesses convergentes.
Essa simplificação precisa ser evitada.
O sistema funciona através de negociação permanente.
Governos precisam de mercados.
Mercados precisam do Estado.
Bancos precisam do Banco Central.
Empresas precisam de crédito.
Partidos precisam de recursos.
Investidores precisam de segurança jurídica.
O Judiciário arbitra conflitos.
O Congresso escreve leis.
O Executivo controla orçamento e política econômica.
A imprensa influencia reputação.
As plataformas digitais influenciam informação.
E todos esses atores operam dentro de um sistema financeiro global que nenhum deles controla integralmente.
É uma arquitetura de interdependência.
Em 2014, uma eleição disputada coincidiu com o início de uma investigação que posteriormente ajudaria a redesenhar profundamente a política brasileira.
O país entrou em uma sequência:
investigação;
crise econômica;
mobilização social;
ruptura parlamentar;
impeachment;
reorganização partidária;
judicialização crescente.
Em 2026, novamente chegamos à eleição com uma investigação financeira capaz de alcançar centros importantes de poder.
Mas o ambiente externo é completamente diferente.
A rivalidade Estados Unidos–China é muito maior.
O BRICS é maior.
Sanções financeiras tornaram-se muito mais comuns.
A tecnologia tornou-se instrumento geopolítico.
Minerais críticos tornaram-se questão de segurança nacional.
Inteligência artificial tornou-se campo de competição estratégica.
E justamente em setembro de 2026, representantes dos Estados Unidos e da China voltaram a negociar tarifas, inteligência artificial e fluxos de minerais críticos — evidência de que a competição entre as duas potências já se estende simultaneamente a comércio, tecnologia e recursos naturais.
O Brasil possui ativos em praticamente todos esses campos.
Ela entra por tarifas.
Sanções.
Crédito.
Tecnologia.
Investimentos.
Infraestrutura.
Dados.
Plataformas.
Cadeias produtivas.
Minerais.
Normas financeiras.
Regulação digital.
Moedas.
Isso ajuda a compreender o Brasil atual.
A política doméstica passou a sofrer choques produzidos fora de suas fronteiras.
Ao mesmo tempo, decisões tomadas dentro do Brasil passaram a produzir respostas externas.
É uma via de mão dupla.
Sistemas complexos raramente funcionam dessa maneira.
Washington possui seus interesses.
Pequim possui os seus.
Bancos possuem os seus.
Partidos possuem os seus.
Ministros possuem os seus.
Empresas possuem os seus.
Fundos possuem os seus.
Candidatos possuem os seus.
Em determinados momentos, interesses convergem.
Em outros, colidem.
A geopolítica nasce justamente dessas convergências e colisões.
Não é necessário que todos estejam reunidos em uma mesma mesa.
Basta que reajam racionalmente aos incentivos produzidos pelo sistema.
Talvez a melhor maneira de compreender o Brasil de 2026 não seja perguntar apenas:
“Quem está contra quem?”
A pergunta mais importante é:
quem depende de quem?
Quem precisa de crédito?
Quem regula esse crédito?
Quem controla os bancos públicos?
Quem fiscaliza os bancos privados?
Quem define os juros?
Quem julga os conflitos?
Quem controla o orçamento?
Quem possui acesso às autoridades?
Quem possui acesso aos mercados?
Quem controla informação?
Quem pode impor sanções?
Quem pode fechar mercados?
Quem pode abrir mercados?
Quem fornece capital?
Quem compra commodities?
Quem domina tecnologia?
Quem possui capacidade de transformar uma decisão política em consequência financeira?
É esse mapa de dependências que revela a verdadeira arquitetura do poder.
O país possui alimentos.
Energia.
Água.
Petróleo.
Minerais.
Território.
Agricultura.
Mercado consumidor.
Indústria.
Sistema financeiro sofisticado.
Influência regional.
Capacidade diplomática.
Relações profundas com o Ocidente.
E relações econômicas igualmente profundas com a China.
Isso transforma a autonomia brasileira em um ativo estratégico.
E torna qualquer eleição presidencial relevante para atores muito além do eleitorado nacional.
É claro que quem decidirá o governo será o eleitor brasileiro.
Mas as consequências da decisão ultrapassarão as urnas.
A próxima administração terá de escolher como administrar a relação com Washington.
Como administrar Pequim.
Como atuar no BRICS.
Como tratar moedas nacionais e novos sistemas de pagamento.
Como responder a tarifas e sanções.
Como proteger empresas brasileiras.
Como lidar com capital estrangeiro.
Como regular plataformas.
Como preservar a estabilidade financeira.
Como administrar a relação entre Executivo, Congresso e Supremo.
E como reconstruir confiança institucional depois do impacto de crises como a do Banco Master.
Por isso, o que está diante do Brasil não é apenas uma disputa por quatro anos de governo.
É uma disputa sobre a arquitetura do próximo ciclo brasileiro.
Esta talvez seja a síntese de tudo.
Banco Master não é BRICS.
BRICS não é STF.
STF não é Washington.
Washington não é eleição.
Eleição não é sistema financeiro.
Mas todos esses elementos podem ser conectados através da estrutura que os envolve.
Dinheiro.
Poder.
Instituições.
Informação.
Dependência.
Soberania.
Acesso.
E geopolítica.
Em 2014, o Brasil descobriu como uma investigação financeira poderia atravessar o sistema empresarial e atingir o coração da política.
Em 2025, descobriu que decisões envolvendo seu Supremo poderiam produzir tarifas e sanções vindas diretamente de Washington.
Em 2026, descobre que uma crise bancária pode atravessar Banco Central, banco estatal, empresários, políticos e o próprio ambiente do Supremo justamente enquanto o país decide sua orientação internacional.
Nenhum desses acontecimentos, isoladamente, explica o Brasil.
Juntos, entretanto, eles revelam uma mudança muito maior.
O Brasil deixou de ser apenas espectador da reorganização internacional.
Tornou-se parte do tabuleiro.
E quanto maior a disputa entre Estados Unidos, China e as novas estruturas multipolares, maior será a pressão sobre Brasília para escolher posições, preservar alianças e negociar sua autonomia.
Por isso o verdadeiro debate brasileiro não deveria limitar-se à pergunta sobre quem ocupará o Palácio do Planalto.
Há outra, muito mais profunda:
qual será o lugar do Brasil na arquitetura de poder que está sendo construída para as próximas décadas?
Presidentes mudam.
Partidos mudam.
Ministros mudam.
Banqueiros desaparecem.
Escândalos são substituídos por outros.
Mas sistemas financeiros, dependências monetárias e alianças geopolíticas podem atravessar gerações.
E é justamente nesses períodos de transição que decisões aparentemente domésticas começam a produzir consequências históricas.
Esta reportagem começou com uma pergunta sobre acontecimentos aparentemente desconectados e termina com uma questão estrutural: quem depende de quem na nova ordem mundial?
Sanções, tarifas, bancos, tribunais, moedas, plataformas e eleições não são a mesma coisa.
Mas todos podem transmitir poder.
E compreender os canais pelos quais esse poder circula talvez seja uma das chaves para compreender o Brasil que emergirá depois de 2026.
→ Volte ao Bloco 1: “O tabuleiro internacional”
→ Leia novamente o Bloco 2: “Banco Master, STF e a anatomia interna do poder”
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