
As quadras dos Jogos Estudantis de Alagoas (JEAL) são ocupadas todos os anos por milhares de estudantes que encontram no esporte oportunidades de aprendizagem, convivência e desenvolvimento. Nos bastidores e à beira das quadras, outro movimento também tem chamado atenção: o aumento da presença feminina em funções que, por muito tempo, foram ocupadas majoritariamente por homens, como a arbitragem e o comando técnico das equipes.
A professora de Educação Física Rayana Priscilla e a árbitra Marília Jatobá fazem parte dessa realidade. Em funções diferentes, as duas construíram suas trajetórias dentro do esporte e acompanham de perto as transformações vividas ao longo dos últimos anos.
Esporte como ferramenta de transformação
Aos 32 anos, Rayana Priscilla liderou a equipe masculina de futsal da Escola Estadual José Correia da Silva Titara, de Marechal Deodoro, na edição de 2026 do JEAL. Com cerca de dez anos de atuação na Educação Física, iniciou sua trajetória profissional em projetos esportivos voltados para recreação e práticas esportivas. A ligação com o futsal, porém, começou ainda no período em que era estudante. O interesse pela modalidade e a oportunidade de trabalhar diretamente com equipes escolares fizeram com que ela passasse a enxergar o esporte para além da competição.
"Quando surgiu a oportunidade de trabalhar diretamente com o futsal, entendi ainda mais que o esporte vai muito além da competição. O futsal é uma ferramenta de transformação social. Ele trabalha disciplina, responsabilidade, liderança, convivência e faz o aluno compreender que ele pode sonhar e correr atrás dos seus objetivos", afirma.
Ao longo da carreira, ela acompanhou diferentes histórias de superação e crescimento dentro das quadras. Um dos momentos mais marcantes aconteceu durante a conquista da fase regional do JEAL 2025 por uma equipe que treinava. Mais do que o resultado alcançado, a experiência ficou marcada pela evolução dos estudantes durante todo o processo.

"Muitas delas chegaram inseguras e, aos poucos, foram acreditando mais nelas mesmas e percebendo que eram capazes de alcançar resultados que antes pareciam impossíveis", relembra.
Para Rayana, competições como o JEAL cumprem um papel importante ao proporcionar experiências que vão além do ambiente escolar. Segundo ela, o evento permite que estudantes conheçam novas realidades, enfrentem diferentes equipes e ampliem suas perspectivas dentro do esporte. A professora também destaca que o esporte escolar contribui para a permanência dos jovens na escola e fortalece valores como respeito, comprometimento e trabalho em equipe.
Ao mesmo tempo, ela avalia que a participação feminina no futsal tem avançado gradualmente. Embora considere que ainda há desafios, observa um interesse crescente das mulheres pela modalidade e pela ocupação de diferentes funções dentro do esporte, seja como atletas, treinadoras ou gestoras esportivas.

Quebrando tabus
Já para Marília Jatobá, o caminho escolhido foi a arbitragem.
Natural de São Miguel dos Campos, no interior de Alagoas, Marília também é professora de Educação Física e iniciou sua trajetória como árbitra em 2013. Na época, apenas três mulheres ingressaram no mesmo processo de formação. Hoje, mais de uma década depois, ela é a única daquele grupo que segue atuando.
Segundo Marília, permanecer na função exigiu dedicação e persistência. Durante os primeiros anos de carreira, contou com o incentivo de uma árbitra mais experiente, que compartilhava orientações e experiências sobre a profissão.
"Ela sempre me incentivou a continuar, porque não é fácil ficar, principalmente em um ambiente que ainda é muito machista", recorda.
Ao longo dos anos, Marília construiu sua identidade dentro das quadras apostando no diálogo e no respeito na relação com atletas e treinadores. Para ela, essa postura contribui com a boa condução das partidas e na construção de um ambiente esportivo mais saudável.

"Quando você trata um adolescente ou uma criança com respeito, ele já diminui a questão de xingar. A gente consegue conduzir o jogo de outra forma", explica.
Em 2025, a árbitra alcançou um dos momentos mais importantes de sua trajetória profissional. Após atuar em uma competição nacional, foi convocada para o Mundial de Futsal Sub-18, tornando-se a primeira representante da arbitragem alagoana a participar da competição.
A experiência internacional foi resultado de uma caminhada iniciada mais de uma década antes, quando decidiu trocar a posição de atleta pela responsabilidade de conduzir partidas. O feito também representou um marco para a arbitragem feminina do estado, ampliando a visibilidade das mulheres em um segmento historicamente dominado por homens.
Presença feminina
As histórias de Rayana e Marília ajudam a retratar um cenário que vem se consolidando dentro do esporte escolar alagoano. Seja orientando equipes ou conduzindo jogos, elas representam a presença de mulheres que encontraram no esporte um espaço de atuação profissional e de contribuição para a formação de crianças e adolescentes.
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