
Tecnologia e Democracia
Por Redação Cabra da Peste | 4 de novembro de 2026
Você abre o celular para ver uma notícia, acompanha alguns vídeos, curte uma publicação e, quando percebe, já passou muito tempo consumindo conteúdos escolhidos por um sistema que você não conhece completamente.
Mas existe uma pergunta que merece atenção: quem decide o que aparece na sua tela?
Por trás das redes sociais existe uma estrutura tecnológica que seleciona, organiza e recomenda conteúdos de acordo com diferentes critérios. São os chamados algoritmos de recomendação, mecanismos que utilizam informações sobre o comportamento dos usuários para personalizar o que aparece em seus feeds.
O resultado é que duas pessoas podem acessar a mesma plataforma e receber conteúdos completamente diferentes sobre o mesmo acontecimento.
A questão vai além da tecnologia. O conteúdo que ganha destaque pode influenciar aquilo que as pessoas conhecem, discutem, compram e até a maneira como interpretam acontecimentos políticos e sociais.
Isso não significa que todo conteúdo recomendado seja manipulado ou que exista uma ordem central controlando o pensamento dos usuários. Significa, porém, que empresas privadas possuem sistemas capazes de influenciar a distribuição da informação em escala gigantesca.
E nem sempre o cidadão sabe por que determinado conteúdo apareceu em sua tela.
Um levantamento do Observatório IA nas Eleições, divulgado pela Agência Brasil em setembro de 2026, analisou 413 conteúdos políticos produzidos com inteligência artificial. Cerca de 40% foram classificados como desinformação, enquanto aproximadamente 60% foram identificados como sátira. Quase dois terços não apresentavam sinalização do uso da tecnologia.
Outro dado chamou a atenção das autoridades: uma pesquisa do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio, em parceria com o Ministério Público Federal, identificou que ferramentas de inteligência artificial generativa ranquearam ou hierarquizaram candidaturas em 90% das respostas examinadas sobre as eleições brasileiras.
São levantamentos diferentes, mas revelam um desafio comum: como garantir que as pessoas recebam informações confiáveis em um ambiente cada vez mais automatizado?
Em setembro deste ano, o Comitê Gestor da Internet no Brasil apresentou 46 diretrizes para orientar a regulação das plataformas digitais.
Entre as recomendações estão maior transparência sobre os critérios de recomendação, possibilidade de escolha de feeds cronológicos e opção de desativar a personalização algorítmica baseada no perfil do usuário.
O Supremo Tribunal Federal também estabeleceu novos parâmetros para a responsabilização das plataformas por conteúdos publicados por terceiros.
A discussão, entretanto, exige equilíbrio: proteger os cidadãos não pode significar eliminar a liberdade de expressão ou permitir censura indevida.
Tem a ver com a notícia que chega até você, a publicidade que recebe, os vídeos que assiste, as informações que compartilha e a possibilidade de formar uma opinião com base em diferentes fontes.
Também envolve crianças, adolescentes, consumidores, trabalhadores, jornalistas e qualquer pessoa que utilize redes sociais.
O cidadão precisa ter condições de entender como seus dados são utilizados e como os conteúdos são selecionados.
Estamos escolhendo livremente o que queremos consumir na internet ou estamos deixando que sistemas automatizados definam, cada vez mais, o que merece nossa atenção?
A tecnologia pode aproximar pessoas, democratizar o conhecimento e ampliar o acesso à informação. Mas, sem transparência e responsabilidade, também pode concentrar poder sobre a circulação de ideias.
A internet precisa continuar sendo um espaço de liberdade, diversidade e informação.
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