
Um grupo de quatro estudantes de Mata Grande olhou para duas realidades aparentemente opostas e enxergou nelas uma solução sustentável. De um lado, toneladas de conchas de sururu acumuladas e descartadas como lixo no Vergel do Lago, em Maceió, gerando poluição e mau cheiro para a comunidade ribeirinha. Do outro, a seca severa que castiga o chão da Caatinga, prejudicando a agricultura familiar e pensando na rotina de quem depende da terra para produzir.
Foi a ponte entre a capital e o interior do sertão que deu origem ao AgroSururu, um hidrogel ecológico e 100% biodegradável. A inovação combina a mucilagem da palma forrageira, planta conhecida pela alta resistência e abundância no semiárido, ao pó da casca de sururu triturada, rica em carbonato de cálcio.
O resultado é um produto capaz de atuar simultaneamente como condicionador de solo, neutralizando a acidez da terra, e uma esponja retentora de umidade que libera água gradualmente para as raízes, sem qualquer adição de polímeros sintéticos poluentes.
A ideia levou a equipe Araújo Jorge, formada pelos estudantes Madson Nunes (15 anos), Débora Lemos (15), Julya Fagundes (15) e Anna Clara Japiassú (16), da Escola Estadual Demócrito Gracindo, a conquistar uma vaga na etapa nacional do Desafio Liga Jovem, iniciativa promovida pelo Sebrae. Entre os dias 1º e 4, eles estarão em Brasília apresentando o projeto diante de avaliadores de todo o país.
Antes disso, nos dias 29 e 30 de outubro, o grupo apresentou o protótipo na Sinpete, evento científico da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Mas por trás dos dados técnicos e das viagens, existe uma caminhada repleta de testes de campo, perrengues de laboratório e uma profunda união de ideias que vamos nos aprofundar nesta reportagem.
Débora Lemos
O ponta pé do projeto surgiu quando a equipe começou a estruturar uma proposta para o Desafio Liga Jovem, cujo objetivo era resolver um problema real da região. A primeira ideia de Débora foi focar no impacto ambiental do descarte de mariscos no Vergel do Lago, mas o grupo percebeu que precisava conectar essa realidade ao Sertão, onde eles vivem diariamente. Foi assim que nasceu a união da palma forrageira com o sururu, conectando a força de duas regiões em um único projeto de sustentabilidade.
Segundo Débora, o AgroSururu funcionou como um conector de pontas para o estado. "Foi um processo de conectar duas pontas de Alagoas através da sustentabilidade. Enquanto em Maceió as cascas de sururu acumulam-se como resíduo no Vergel do Lago, aqui no Sertão enfrentamos a escassez de água e a perda de nutrientes do solo. Perceber que o que é descartado na capital guarda propriedades ricas em carbonato de cálcio foi a chave do projeto", explica a estudante.
A estudante detalha o sufoco vivenciado no plantio até atingir a consistência estável do produto. "O nosso maior desafio foi descobrir na prática a proporção exata entre a quantidade de palma forrageira e de casca de sururu. Passamos semanas aplicando e observando diferentes misturas diretamente na terra. Em alguns testes na plantação, a fórmula passava do ponto e endurecia rápido demais; em outros, ficava muito líquida e era absorvida pelo solo antes do tempo", relata Débora.
Apesar das dificuldades enfrentadas no manejo do solo, o impacto da pesquisa modificou a forma como a equipe projeta o amanhã. Débora, que planeja cursar Medicina, destaca que o projeto trouxe um aprendizado que os livros tradicionais da sala de aula não ensinam. "O grande diferencial foi que essa experiência abriu muito os nossos olhos para a área do empreendedorismo. Nós nunca tínhamos tido contato com esse universo antes", disse a aluna.
Madson Nunes
Madson Nunes foi quem insistiu desde o início para que o projeto não deixasse de lado a Caatinga, um bioma único e frequentemente castigado pela desertificação e pela seca prolongada. Para o estudante, desenvolver um projeto científico em Mata Grande sem olhar para os pequenos agricultores locais seria ignorar a própria essência do interior alagoano. Ele defende que a tecnologia precisa nascer da empatia e da observação do cotidiano para realmente transformar a comunidade ao redor.
Ao falar sobre a decisão de trazer a realidade do Sertão para dentro da pesquisa, Madson fala da importância da consciência coletiva no desenvolvimento social. "Quando a gente exclui um problema que está ao nosso redor, nós vamos ser um pouco egoístas. A gente decidiu unir isso, porque o que é lixo para algumas pessoas pode se tornar riqueza para a gente. Como a gente fala, nós unimos as duas pontas, porque Mata Grande fica em uma ponta e Maceió fica em outra", pontua Madson.
Traduzir essa ciência de laboratório para uma linguagem acessível e familiar foi um exercício diário para o estudante. Ele lembra com carinho de quando precisou explicar o funcionamento do AgroSururu para a sua avó, que é agricultora e vive a dura rotina do campo. A simplicidade na explicação transformou termos complexos em um conceito que qualquer pessoa da roça consegue visualizar e entender.
Ao se recordar da conversa com a avó, Madson utiliza a mesma clareza para descrever o invento. "Eu falei para ela que a gente usou a palma – que ela convive todos os dias, e dá aos porcos e animais do sítio –, e misturou com o pó da casca de sururu. Formou uma pasta que a gente enterra na raiz da planta e rega. Essa pasta segura a água, vira meio que uma esponja e, quando a terra começa a ficar seca, ela solta a umidade de volta. É meio que um regador natural", conta o jovem.
Madson revela que a ficha de estar entre os finalistas nacionais do Sebrae ainda custa a cair, principalmente por saber das dificuldades de acesso e de oportunidades que os jovens do interior enfrentam. Dividido profissionalmente entre cursar Jornalismo ou ingressar no ativismo ambiental e na política, Madson enxerga no hidrogel um ponto de partida para a vida. "Sair do interior de Alagoas para Brasília é algo muito louco. É muito bom saber que ainda existem pessoas que acreditam na juventude e no nosso potencial", conclui.
Julya Fagundes
Enquanto os testes de aplicação na terra eram feitos, os bastidores de preparação da matéria-prima reservavam seus próprios desafios nos testes. Julya Fagundes acompanhou de perto as complicações na hora de preparar a palma forrageira, cuja mucilagem precisava ser extraída e seca ao sol na medida correta. Qualquer descuido no tempo de exposição solar fazia com que a planta acumulasse umidade excessiva e fermentasse antes mesmo de ser misturada ao pó das conchas de sururu.
Julya relata a paciência necessária para não desanimar diante dos erros durante o processo de secagem do vegetal. "O maior desafio foi a questão dos testes para finalmente dar certo. Às vezes a palma fermentava porque ela tinha que secar e não secava direito. Tinha que deixar ela no sol para poder misturar com o pó da casca do sururu, mas no fim ajustamos o tempo no sol e deu tudo certo", relembra a estudante.
No convívio do grupo, Julya atuou como o ponto de equilíbrio emocional ao lado de Madson. Enquanto a ansiedade por resultados imediatos tomava conta da equipe nos momentos mais críticos da competição, ela mantinha a cabeça fria e a positividade acesa. A dinâmica entre os quatro colegas de turma funcionava de maneira complementar: as controvérsias e dúvidas eram resolvidas na prática, testando diretamente o que dava certo e descartando o que não se mostrava viável no protótipo.
Para o futuro, Julya pretende cursar Direito, mas garante que o processo de criação do hidrogel redefiniu para sempre a sua postura. A garota de 15 anos deixa uma mensagem forte para outros jovens do sertão que sonham em fazer ciência sem ter grandes recursos em mãos. "Nós, do interior, não imaginávamos que iríamos conseguir. A gente sabia que tinha capacidade, mas foi uma surpresa muito grande. O conselho que eu dou é tentar e se esforçar, não deixar de participar dos projetos e aceitar as oportunidades, porque uma hora dá certo", afirma.
Anna Clara
Se a fase de testes exigiu resiliência científica, a apresentação virtual na etapa estadual do Desafio Liga Jovem exigiu sangue frio e uma boa dose de improviso. Anna Clara lembra com detalhes de uma noite memorável em que tudo parecia dar errado. No instante decisivo em que a equipe apresentava o projeto para a banca avaliadora, a conexão de internet da escola caiu por completo, obrigando os quatro estudantes a correrem pela rua perto das 22h30 para tentar conseguir um sinal de Wi-Fi.
A tristeza do grupo durou quase um mês, até que o resultado oficial foi divulgado no dia 10 de outubro. Anna Clara recorda que eles estavam comendo pastel quando abriram a lista de classificados e viram o nome da equipe Araújo Jorge no topo. A comemoração empolgada no meio da rua revelou a virada de jogo do grupo, que saiu do pânico da queda de sinal para a conquista da vaga na semifinal em Brasília.
A trajetória de Anna Clara é um exemplo marcante do impacto que a educação pública pode produzir na vida de um jovem. Aos 16 anos e com o sonho de cursar Medicina, a estudante foi selecionada para o programa do Governo do Estado "Daqui pra o Mundo", embarcando para um intercâmbio de um mês na Inglaterra a partir do dia 29 de outubro. Ela retornará ao Brasil com o tempo cravado para ensaiar com a equipe antes de viajar para a apresentação nacional em Brasília.
A ciência que transforma
A construção do AgroSururu não seria a mesma sem a orientação e a entrega da professora de Sociologia e Projeto de Vida, Thaís Souza. Descrita pelos estudantes como uma verdadeira parceira, a docente abraçou a ideia desde o mês de abril, doando seu tempo para superar barreiras burocráticas, conseguir transporte para entrevistas com agricultores locais e até ir buscar conchas de sururu nas feiras livres para garantir o material do protótipo.
O projeto da equipe Araújo Jorge traduz o vigor e a inteligência da juventude alagoana quando colocada no centro da produção do conhecimento científico. Ao transformar os resíduos descartados na Lagoa Mundaú em um aliado no combate à seca no solo de Mata Grande, os alunos da Escola Estadual Demócrito Gracindo mostram que a ciência feita no chão da escola pública está pronta para encantar Alagoas e o Brasil.
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