
Política
Aeronave da Baires Fly levou o senador e sua família aos Estados Unidos, via Equador. Empresa aparece em apuração sobre suspeitas de lavagem de recursos ligados à agência argentina de deficiência; quem financiou o voo permanece uma questão central.
A viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos ganhou uma dimensão que ultrapassa a política brasileira. O senador, derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno presidencial, embarcou com a família em um jato executivo da empresa argentina Baires Fly, depois de uma determinação judicial que restringia sua saída do país. A companhia, por sua vez, aparece em uma investigação argentina sobre possíveis irregularidades em contratos públicos destinados a pessoas com deficiência.
Segundo a Direção Nacional de Migrações da Argentina, Flávio, a mulher e as duas filhas entraram no país às 22h50 de 27 de outubro, pela Ponte Internacional Tancredo Neves. Cerca de 40 minutos depois, embarcaram em um Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, com destino declarado a Guayaquil, no Equador. A aeronave seguiu posteriormente para a região de Miami, segundo registros e reportagens publicados em 28 de outubro.
A saída ocorreu após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinar a entrega dos passaportes e proibir Flávio de deixar o Brasil. O prazo não foi cumprido, e os documentos brasileiros foram cancelados, conforme reportagens da imprensa.
A entrada na Argentina foi registrada com documentação válida. Isso, porém, não esclarece por si só como a travessia ocorreu diante da ordem brasileira, nem quais documentos foram apresentados. A diferença entre a jurisdição argentina e a brasileira é relevante: a confirmação de entrada legal em um país não responde automaticamente às questões sobre o cumprimento de uma decisão judicial no outro.
A Baires Fly é associada, nas reportagens sobre o caso, ao empresário Sergio Daniel Mastropietro. Segundo o jornal argentino La Nación, investigadores examinaram transferências de fornecedores ligados às compras da Agência Nacional de Deficiência (ANDIS) e faturas emitidas pela companhia aérea por serviços aeronáuticos. A hipótese é que operações comerciais tenham sido usadas para dar aparência legal a recursos de origem irregular.
A investigação sobre a ANDIS envolve suspeitas de direcionamento de contratos, sobrepreços e lavagem de dinheiro. Em outubro de 2026, a imprensa argentina noticiou decisões judiciais que ampliaram os processamentos e estimaram em mais de 7,8 bilhões de pesos as diferenças de preços sob análise. O montante é uma estimativa investigativa, não uma condenação definitiva.
A coincidência entre a viagem e a investigação argentina não prova que Flávio Bolsonaro tenha participado de qualquer irregularidade relacionada à ANDIS. Nas fontes consultadas, não foi apresentada evidência de que o senador estivesse envolvido no suposto esquema.
Persistem perguntas concretas: quem contratou e pagou pelo voo, quais foram os intermediários e o que as autoridades brasileiras sabiam sobre a movimentação da aeronave. A resposta depende de documentos, registros oficiais e manifestação das partes — não de inferências baseadas apenas na identidade da empresa.
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