
Há 30 anos, a urna eletrônica transformou a forma como os brasileiros elegem seus representantes e governantes. Pioneiro na adoção do voto eletrônico em larga escala, o Brasil passou a contar com um sistema que tornou a votação e a apuração mais rápidas. Aolongodasdécadas,atecnologiatambémfoiaperfeiçoadaparareduzirosimpactosambientais, especialmente no descarte e na reciclagem dos equipamentos.
Antes de 1996, os votos nas eleições brasileiras eram registrados em cédulas de papel e depositados em urnas físicas. A apuração era manual e, em cidades maiores, podia durar de sete a 15 dias. Em 1994, a totalização dos resultados já era informatizada, mas os eleitores ainda votavam em papel.
Na implantação do novo sistema de votação, a urna eletrônica foi utilizada por cerca de um terço do eleitorado. Em 1998, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ampliou o uso da tecnologia. Dois anos depois, em 2000, o Brasil realizou a primeira eleição totalmente informatizada, com todos os eleitores votando eletronicamente.
Asubstituiçãodascédulasdepapelrepresentaumadasprincipaiscontribuiçõesdaurnaeletrônicaparaasustentabilidadedaseleições.Segundoestimativaapresentada pelo TSE, cerca de 13,5 mil toneladas de papel deixaram de ser utilizadas nos últimos 30 anos,considerandoapenasascédulasqueeramentreguesaoseleitores.
O secretário de Tecnologia da Informação do TSE, Júlio Valente, explicou que a informatização reduziu o tempo necessário para a apuração dos votos. Antes da adoção da tecnologia, o processo podia se estender por mais de dez dias, mobilizando trabalhadores e exigindo deslocamentos e estruturas de apoio por períodos prolongados. Segundo ele, a maior agilidade ajudou a diminuir a pegada ambiental das eleições.
— Oimpactoéindiretonosentidodequetudosetornoumaisrápidoe,portanto,comumapegadamenorquandoagentepensanaeleiçãocomoumtodo —explicou.
Aavaliaçãodoimpactoambiental,noentanto,tambémprecisaconsiderarosrecursosempregadosnafabricação,notransporte,nofuncionamentoenodescartedasurnaseletrônicas.Opróprioequipamentoconsomeenergiaeutilizadiferentesmatérias-primasemsuaprodução.
Umaurnaeletrônicapodeserutilizadaemseisouseteeleições,oquecorrespondeaaproximadamente12a15anosdevidaútil.Asubstituiçãodepende,entreoutrosfatores,dofuncionamentodoequipamentoedanecessidadedemanteraconfiabilidadedoprocessoeleitoral.
— Seaurnaestáfuncionandobem,se nãoestádandomuitoproblema,agenteconseguecontinuarutilizandoessaurnaporváriaseleições — destacou Valente.
Quandoéconsideradaimprópriaparacontinuaremuso,a urna passaporumprocedimentodedescarteambientalmenteadequado.Osequipamentossãoencaminhadosaempresasespecializadas,desmontadosedescaracterizados.Emseguida,oscomponentessãoseparadosportipodematerialetrituradosparaseremreaproveitadosemoutrosprocessosindustriais.
A Justiça Eleitoral realiza leilões para contratar empresas especializadas na destinação dos equipamentos. Os contratos exigem que pelo menos 95% dos materiais sejam reciclados. Nos procedimentos mais recentes, esse índice chegou a 98%.
— Omínimonessescontratosé95%dereciclagem.Oqueissoquerdizer?Decadaurnaeletrônica,95%delavaiparareciclagem,éreaproveitadoemoutrosprocessosfabris.Masnosúltimosdescartes, a gente tem conseguido até98%depercentualdereciclagem — explicou osecretário.
Aparcelarestante,de2%a5%,édestinadaaaterrossanitárioscertificados.
Oreaproveitamentopermitequemateriaisutilizadosnafabricaçãodasurnasretornemàcadeiaprodutiva,reduzindoanecessidadedeextraçãodenovosrecursosnaturaiseosimpactosassociadosàproduçãodenovosequipamentos.
Apreocupaçãocomasustentabilidadetambémprovocoumudançasnodesenvolvimentodasurnaseletrônicas.Nasprimeirasversões,lançadasem1996e1998,algunscomponentesdificultavamareciclagemediminuíamovalordosmateriaisreaproveitados.
De acordo comValente, aJustiçaEleitoralpassouaincorporarcritériosambientaisaoprojetodosequipamentosàmedidaqueidentificavaoportunidadesdemelhoria.
UmexemplofoioadesivoplásticocomonomedaJustiçaEleitoral,utilizadonasprimeirasversões.Comodificultavaareciclagem, o materialfoisubstituídoporumainscriçãoemalto-relevonopróprioequipamento.
Outramudançaocorreunasteclasdoequipamento.Nasprimeirasversões,osnúmerosbrancoseramfeitoscomumtipodeplásticodiferentedaqueleutilizadonabasepreta.Adiferençaentreosmateriaisdificultavaoreaproveitamentoereduziaovalorderevendadoscomponentes.
Comarevisãodoprojeto,aJustiçaEleitoralpassouautilizarmateriaisdamesmanaturezanafabricaçãodasteclas,facilitandoareciclagem. SegundoValente,asaquisiçõesdenovasurnasincorporammelhoriasvoltadasaoaumentodopercentualdemateriaisreaproveitados.
Alémdasustentabilidadenafabricaçãoenodescarte,aJustiçaEleitoral precisaconsiderarosefeitosdasmudançasclimáticassobrearealizaçãodaseleições.Secas,enchenteseoutroseventosextremospodemdificultarotransportedosequipamentoseoacessoaoslocaisdevotação.
Paraacompanharessesriscosnaseleiçõesde2026,oTSEcrioua Sala Nacional de Situação Climática,comoobjetivodemonitorarascondiçõesambientais,identificarpossíveisdificuldadeserecomendarplanosdecontingência.
Valente afirmou que ainiciativabuscaprepararaJustiçaEleitoralparasituaçõesquepossamcomprometeralogísticadavotação. Osecretárioexplicou queasurnaseletrônicassãoprojetadasparafuncionaremdiferentescondiçõesambientais.Duranteafabricação,osequipamentospassamportesteslaboratoriaisqueincluemmilciclosdevariaçãodetemperatura,entre-20°Ce85°C.
Apesardaresistênciadosequipamentos,osdesafioslogísticospermanecem.Omonitoramentoantecipadodascondiçõesclimáticaspermiteidentificarriscoseprepararalternativasparagarantiradistribuiçãodasurnasearealizaçãodavotação.
Trêsdécadasdepoisdesuaimplantação,aurnaeletrônicacontinuapassandoporaperfeiçoamentos.Alémdetornaravotaçãoeaapuraçãomaisrápidas,atecnologiaincorporoucritériosambientaisquehojeorientamdesdeodesenvolvimentodosequipamentosatésuadestinaçãofinal.
*Assista aqui à reportagem especial sobre o tema no programa EcoSenado, da TV Senado.
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