
ELEIÇÕES
Flávio terminou na frente, mas não levou o pacote completo. A eleição ficou para o segundo turno, em 25 de outubro, porque brasileiro gosta mesmo é de emoção, fila e uma segunda oportunidade para discutir política no grupo da família.
No Nordeste, Lula venceu com folga. No Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a história virou do avesso.
São Paulo, sozinho, deu a Flávio uma vantagem maior do que a diferença dos dois no país inteiro.
Pois é.
Tem estado que participa da eleição.
São Paulo praticamente chega carregando o placar debaixo do braço.
Mas o mapa fica mais interessante quando a gente larga aquela pintura vermelha e azul, que transforma eleição em campeonato de torcida, e olha cidade por cidade.
Quando os municípios são organizados pela margem de vitória, aparecem dois morros.
É o Brasil fazendo aquilo que sabe fazer melhor: discordar com convicção e achar estranho que o vizinho não enxergue o óbvio.
Em Nova Pádua, no Rio Grande do Sul, Flávio teve 87%.
Em Bonfim do Piauí, Lula teve 89%.
Quase 2.400 quilômetros separam as duas cidades.
Politicamente, parece dar uns 14 mil.
E aí vem uma diferença interessante.
Em Bonfim, mais da metade da população recebe Bolsa Família. Em Nova Pádua, menos de 2%.
Pronto.
A primeira pista entrou pela porta sem bater.
Quando se colocam todos os municípios no gráfico, aparece uma relação bem clara: quanto maior a participação do Bolsa Família na população da cidade, maior tende a ser a votação de Lula.
Atenção para o “tende”.
Porque estatística não é mãe de santo, não lê destino, nem adivinha voto individual.
Mas também não adianta olhar para uma tendência desse tamanho e dizer que é coincidência. Aí já não é prudência científica.
É fazer força para não enxergar.
No Nordeste, Lula continua ganhando mesmo nas cidades com maior presença evangélica.
Mas o apoio cai.
E cai bonito.
Sai de 74% para 56%.
Continua sendo maioria, claro.
Mas já é aquela maioria que passou de vitória de lavada para vitória com gente perguntando onde foi parar o resto do eleitorado.
A comparação com 2022.
Se cada município tivesse repetido a votação da eleição anterior, os pontos estariam todos alinhadinhos.
Bonito.
Organizado.
Uma maravilha para PowerPoint.
Só que eleição tem o péssimo hábito de atrapalhar narrativa.
Noventa e nove por cento.
É um número tão delicado que, dependendo da coletiva, corre o risco de ganhar o nome de “ajuste territorial de desempenho”.
Além disso, 711 cidades que haviam dado vitória a Lula passaram agora para Flávio.
E quantas cidades que eram de Bolsonaro passaram para Lula?
Nenhuma.
Zero.
Nem uma alma municipal se apresentou para salvar o argumento.
Aí alguém pode perguntar:
Calma também, criatura.
Os dois morros já estavam lá em 2022.
A divisão estrutural continua.
As regiões continuam diferentes.
Municípios com perfis econômicos distintos continuam votando de formas distintas.
Religião continua pesando.
Renda continua pesando.
Programas sociais continuam pesando.
O que mudou foi outra coisa.
Os dois morros se mexeram.
E se mexeram juntos.
Na direção de Flávio.
Os dois blocos se deslocaram.
É como uma procissão política em que cada grupo continua carregando seu santo, mas todo mundo resolveu andar alguns metros para o mesmo lado.
A fronteira segue quase no mesmo lugar.
O movimento aconteceu dentro dela.
Flávio parte com 2,2 milhões de votos de vantagem.
É vantagem?
Claro que é.
Quem disser que não é provavelmente trabalha em campanha.
Mas há cerca de 9 milhões de votos que foram para outros candidatos no primeiro turno.
Candidato vai descobrir que ama região onde mal pisava.
Vai surgir sotaque emprestado.
Vai ter abraço em feira.
Vai ter café tomado olhando para câmera.
Vai aparecer político comendo coisa que claramente nunca pediu por vontade própria.
E, com sorte, alguém ainda vai dizer que “sempre teve uma relação muito profunda com o povo daqui”.
Sempre.
Desde aproximadamente terça-feira passada.
No dia 25 de outubro, os dois Brasis voltam às urnas.
Os morros continuam lá.
As diferenças continuam lá.
Os números também.
Mas voto não é escritura de terreno.
E, em eleição apertada, muda o suficiente para transformar discurso de vitória em nota de agradecimento.
Por isso, antes de soltar foguete, melhor conferir se o resultado já terminou de contar.
Porque política brasileira tem uma regra antiga:
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