
Foto: Divulgação - Arquivo ZMP
Mineiro, surgido no futebol carioca e três vezes campeão pernambucano, Geraldo Pereira chegou a Feira de Santana em 1956 e nunca mais saiu. O Fluminense passou a fazer parte de sua família ou ser a sua família. Revelou incontáveis atletas, foi dono de uma pensão e o pouco tempo livre que tinha era dedicado à criação de pássaros. Dizia sempre: “Meu time é o Fluminense”.
O futebol é um dos assuntos preferidos do brasileiro, talvez mesmo o primeiro. Assim, falar sobre Geraldo Pereira é rememorar parte da história do Fluminense de Feira, o Touro do Sertão, campeão invicto da segunda divisão do futebol baiano este ano, garantida sua presença na primeira divisão em 2027. Natural de Santo Dumont, Minas Gerais, Geraldo Pereira surgiu com destaque no futebol carioca como juvenil do América, onde se profissionalizou e foi titular do Bangu. Em Pernambuco conquistou o título de campeão três vezes pelo Santa Cruz e o Sport. Alto, elegante, passadas largas, GP ou ‘Sinhô’, como era tratado no meio futebolístico, ganhou prestígio pela forma clássica de atuar.
Em 1956, o Fluminense, com dois anos de profissionalismo, foi vice-campeão baiano e tinha um bom elenco, com Peri-Peri, Bueiro, Maneca, Elias, Regis, Hosanah Bahia, Quarentinha, Fontoura, Flavio, Borracha, Amorim, Elias II, Juracy, Mila, dentre outros, quando Geraldo Pereira chegou, indicado pelo cronista esportivo de Salvador, Talma Pimentel, que fazia parte da diretoria do tricolor. Zagueiro seguro, que sabia sair com a bola dominada, Geraldo impunha-se pela liderança nata e preparo físico apurado, logo passando a conduzir o elenco nos treinamentos então realizados no “campo da usina de algodão”.
Na verdade, eram dois campos, de dimensões oficiais, no início da Rua Castro Alves. A leve camada de areia era muito melhor que os gamados da época, chamados ‘capim de burro’. Sem teoria, como era comum então, mas bem afinado com a prática, em 1960 Geraldo tornou-se auxiliar técnico do treinador José Maria e, logo após, passou a ser oficialmente técnico e preparador físico. Nesse item, era rigoroso, sem perder a afabilidade que o fazia estimado pela rapaziada tricolor, apesar do ‘sofrimento’. GP promovia sessões de atividades físicas geralmente nas terças e quintas-feiras, no antigo estádio municipal, estádio Almáchio Alves Boaventura, que incluía, além de diversos exercícios convencionais, subir e descer correndo as arquibancadas de cimento do estádio, o que estafava alguns atletas.
Havia ainda longas corridas de rua. No conjunto, o trabalho físico um tanto empírico de GP era chamado “Arrasa Quarteirão”, mas, nos jogos, os atletas jamais reclamaram a falta de condições físicas. Importante dizer que Geraldo fazia todas as atividades físicas ao lado dos jogadores, o que os estimulava e evitava o chamado ‘corpo mole’ comum àqueles que não gostam de treinar. GP eternizou-se como técnico, auxiliar técnico, preparador físico e até massagista, inclusive foi ele que ensinou a profissão a Aloisio Trindade, um dos mais reverenciados massagistas do futebol baiano, que trabalhou até no exterior. GP revelou um número enorme de jogadores e dirigiu o elenco principal em várias temporadas, como a de 1969, quando o time foi campeão estadual com Walter Miraglia, consolidando o trabalho por ele iniciado.
Emprestado ou licenciado, Geraldo passava alguns dias longe do Touro, mas logo estava de volta. Assim, em 1970, levou o modesto time do Jequié ao inédito e inimaginável título de vice-campeão baiano. Na mesma situação contratual, dirigiu o Asa de Arapiraca e o Real de Serrinha. Fora do futebol, era um dedicado criador de pássaros, um verdadeiro ornitófilo, que acordava todos os dias muito cedo para cuidar de quase duas dezenas de pássaros. Essa tendência se acentuou com a aposentadoria, quando ele residia na Rua Farmacêutico José Alves, Tanque da Nação.
Bem antes, ele teve uma pensão na Avenida Senhor dos Passos, prédio vizinho à extinta Rádio Carioca de Feira, mas, até o final da vida, nunca se afastou do time do seu coração: Fluminense de Feira Futebol Clube. Pai do falecido Lula Pereira, que foi zagueiro e técnico profissional, Geraldo Pereira faleceu em Feira de Santana em 17 de fevereiro de 2004, deixando viúva a senhora Dulci e cinco filhos.
Por Zadir Marques Porto
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