
Nesta sexta, 26, é celebrado o Dia Nacional do Diabetes, data de conscientização e prevenção da doença, que tem como um dos tipos o diabetes gestacional. Na grande maioria dos casos, o diabetes gestacional é silencioso, pois os sintomas costumam ser leves e podem ser confundidos com os da própria gravidez. Na Maternidade Nossa Senhora de Lourdes (MNSL), referência estadual para partos de alto risco, cerca de 15% das pacientes atendidas apresentam diabetes gestacional.
De acordo com a gerente da Admissão da MNSL, Angélica Aragão, de janeiro a maio deste ano foram atendidas no setor de Admissão 5.462 gestantes, destas, 812 apresentaram diabetes gestacional, o que significa quase 15% do total de atendimentos. “O diabetes gestacional é o segundo diagnóstico de maior incidência nos atendimentos da maternidade, sendo o primeiro as síndromes hipertensivas”, informou.
A dona de casa de Laranjeiras, Larissa Gabrielly Borges, descobriu que estava com diabetes gestacional na gravidez de Ayanna Gabrielly. Ela fez o pré-natal de risco no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism) e foi encaminhada à MNSL para realizar o parto. "Eu nunca tive diabetes, mas apareceu na gestação, assim que descobrimos, iniciamos o tratamento. Eu tive a minha filha com 38 semanas e ela nasceu enorme com 4,2 kg. Agora as minhas taxas estão todas normais. Meu maior medo era ter desenvolvido essa doença, mas, graças a Deus, estou bem", enfatizou.
A ginecologista e obstetra da MNSL, Glícia Ramos, explica que diabetes gestacional é uma alteração no metabolismo da glicose que é diagnosticada pela primeira vez durante a gravidez, em mulheres que não tinham diabetes antes de engravidar. Nessa condição, o organismo não consegue produzir insulina suficiente para atender a maior demanda gerada pela gestação, resultando em níveis elevados de glicose no sangue. “É uma das complicações metabólicas mais comuns da gravidez e, quando não diagnosticada e tratada adequadamente, pode trazer riscos sérios tanto para a mãe quanto para o bebê. O pré-natal adequado é a única forma de rastrear, diagnosticar e tratar o diabetes gestacional dentro do tempo certo. O pré-natal não é burocracia, é proteção de vida, tanto da mãe quanto do bebê”, explicou a médica.
Segundo Glícia, existem vários fatores que aumentam a chance de uma gestante desenvolver diabetes gestacional. Os mais importantes são: obesidade ou sobrepeso antes da gravidez, histórico familiar de diabetes (especialmente em parentes de primeiro grau), idade materna igual ou superior a 35 anos, antecedente de diabetes gestacional em gestação anterior, bebê anterior com peso acima de quatro quilos ao nascer (macrossomia), síndrome dos ovários policísticos, sedentarismo e alimentação rica em carboidratos refinados e açúcares. “É importante ressaltar, no entanto, que o diabetes gestacional pode ocorrer mesmo em mulheres sem nenhum fator de risco identificável, daí a importância de rastrear todas as gestantes no pré-natal”, completou.
Tratamento
A obstetra orienta que o tratamento começa sempre com mudanças no estilo de vida com orientação nutricional individualizada e incentivo à atividade física regular. “A maioria das mulheres consegue controlar a glicemia apenas com essas medidas. Quando a dieta e o exercício não são suficientes para atingir as metas glicêmicas, inicia-se o tratamento medicamentoso. A insulina é a medicação de primeira escolha na gestação por ser segura, eficaz e não atravessar a barreira placentária. Em alguns casos, a metformina pode ser utilizada, mas a insulina segue sendo o padrão-ouro”, informou.
O controle glicêmico é monitorado com medições regulares de glicose, em jejum (abaixo de 95 mg/dL) e uma hora após as refeições (abaixo de 140 mg/dL). A alimentação equilibrada com redução de carboidratos de alto índice glicêmico, fracionamento das refeições ao longo do dia e aumento do consumo de fibras, proteínas e gorduras saudáveis é a base do tratamento. A atividade física, por sua vez, melhora a sensibilidade à insulina e ajuda a manter a glicemia em níveis adequados. “Caminhadas de 30 minutos após as refeições já têm impacto comprovado no controle glicêmico. Para a grande maioria das gestantes com diabetes gestacional, especialmente aquelas diagnosticadas precocemente, essas intervenções são suficientes para não precisar de medicamento”, enfatizou a obstetra.
Riscos
Para a mãe, os principais riscos incluem pré-eclâmpsia, infecções urinárias de repetição, parto prematuro, maior chance de cesárea (especialmente por macrossomia fetal) e risco aumentado de desenvolver diabetes tipo 2 no futuro. Para o bebê, os riscos mais preocupantes são: macrossomia (bebê grande, acima de quatro quilos), hipoglicemia neonatal nas primeiras horas após o nascimento, dificuldade respiratória, malformações congênitas quando o diabetes não é controlado no início da gestação, e maior predisposição à obesidade e ao diabetes na vida adulta.
“Complicações como natimortalidade também podem ocorrer em casos graves e sem controle adequado. Não é possível prevenir em todos os casos, mas é possível reduzir significativamente o risco. Manter um peso saudável antes e durante a gravidez, ter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente e iniciar o pré-natal precocemente são as medidas mais eficazes”, orientou Glícia.
Sinais de alerta
Há sinais de alerta os quais devem levar a gestante a procurar atendimento médico imediatamente como sede excessiva e constante, vontade frequente de urinar em grandes volumes, visão turva, cansaço desproporcional, dores de cabeça persistentes, náuseas e vômitos fora do padrão do primeiro trimestre, e qualquer sensação de mal-estar importante durante a gestação. “Esses são sinais que merecem avaliação médica imediata. Especificamente no contexto do diabetes gestacional já diagnosticado, episódios de tontura, suor frio, tremores ou confusão mental podem indicar hipoglicemia (queda súbita da glicose) e também requerem atenção urgente”, advertiu a médica.
Na maioria dos casos, o diabetes gestacional desaparece após o parto. Com o nascimento do bebê e a expulsão da placenta, os hormônios que causavam resistência insulínica deixam de ser produzidos, e os níveis de glicose tendem a se normalizar nas semanas seguintes ao parto. No entanto, o diagnóstico definitivo de resolução só é confirmado com a realização de um exame entre 6 e 12 semanas após o parto. “Essa reavaliação é obrigatória e frequentemente esquecida, mas é uma orientação que eu dou a todas as minhas pacientes antes da alta”, disse.
A médica alerta que o diabetes gestacional é uma condição silenciosa, a maioria das mulheres não sente nada, e é justamente por isso que os exames de rastreamento são tão importantes. Quando diagnosticado cedo e tratado adequadamente, o diabetes gestacional pode ser controlado com segurança, e a grande maioria das gestantes tem uma gravidez saudável e um bebê bem. “O risco está em não saber. Por isso, não deve faltar consultas de pré-natal, deixar de fazer os exames solicitados, e tirar dúvidas com o médico”, finalizou.








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