
“Na hora, eu nem achei que a agulha tinha perfurado meu dedo.” A lembrança é da enfermeira Cintia Rocha, profissional da emergência do Hospital São José (HSJ), unidade da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), que vivenciou uma situação que pode acontecer com qualquer profissional da saúde. Durante a aplicação de uma medicação, a paciente, por medo da picada da agulha, movimentou a mão de forma brusca e a agulha atingiu o dedo da profissional. Somente após concluir o atendimento e retirar as luvas, Cintia percebeu que havia sofrido um ferimento. Rapidamente, procurou orientação e iniciou a Profilaxia Pós-Exposição (PEP), recomendada para esses casos, com o intuito de prevenir infecção pelo HIV.
“Pode acontecer com qualquer pessoa. Não foi falta de cuidado ou erro. Às vezes, mesmo fazendo tudo corretamente, situações inesperadas acontecem. O importante é não ter medo de falar sobre o acidente e procurar atendimento o mais rápido possível”, relata a enfermeira.
A história de Cintia é semelhante à de centenas de pessoas atendidas todos os anos na emergência do Hospital São José. Somente em 2025, a unidade registrou 938 notificações de atendimentos relacionados a acidentes com materiais perfurocortantes. Em 2026, até o dia 15 de junho, já haviam sido contabilizados 667 casos.
Mas afinal, quando é necessário procurar a emergência PEP do HSJ?

Segundo o médico infectologista Leonardo Morais, toda situação que envolva exposição a sangue ou outros fluidos corporais com potencial risco de transmissão de doenças infecciosas deve ser avaliada por um profissional de saúde.
“Estamos falando de acidentes com agulhas, seringas, lâminas, bisturis ou qualquer objeto que tenha sido utilizado por outra pessoa e que possa estar contaminado. Também devem procurar atendimento pessoas que sofreram perfurações por objetos de origem desconhecida, encontradas em ambientes públicos, ou que tiveram contato de sangue ou secreções com olhos, boca ou ferimentos na pele”, explica o infectologista.
Embora muitas pessoas associem esse tipo de atendimento apenas aos profissionais de saúde, o serviço está disponível para qualquer cidadão que tenha sofrido uma exposição de risco. Entre os casos atendidos estão profissionais da segurança pública, trabalhadores da limpeza urbana, higienização, entre outros, que se ferem com seringas descartadas de forma inadequada, vítimas de acidentes em locais públicos e pessoas que sofreram algum tipo de exposição a sangue, secreções ou outros fluidos corporais que podem transmitir doenças infecciosas.
A Profilaxia Pós-Exposição (PEP) é uma medida de prevenção utilizada após situações em que existe risco de contato com o vírus HIV. É recomendada em casos de: relação sexual sem preservativo, violência sexual e acidentes ocupacionais com instrumentos perfurocortantes, como agulhas ou lâminas. O tratamento consiste no uso de medicamentos por 28 dias e deve ser iniciado o mais rápido possível.
“O ideal é que a pessoa procure atendimento imediatamente após o acidente. A PEP pode ser iniciada em até 72 horas após a exposição, mas quanto mais cedo o tratamento começar, maior a sua eficácia”, destaca Leonardo Morais.
Além da avaliação para HIV, a equipe também verifica a necessidade de proteção contra hepatites virais e tétano, de acordo com o histórico vacinal e as características do acidente.
A primeira medida é simples: lavar o local do ferimento com água e sabão em abundância. Depois disso, a orientação é procurar atendimento médico o mais rápido possível. Também é importante evitar práticas populares que podem piorar a situação.
“Não se deve aplicar álcool, vinagre, borra de café, plantas ou qualquer produto caseiro sobre a lesão. Essas substâncias podem irritar a pele e aumentar o risco de infecção”, alerta o infectologista.
Nem todo corte ou perfuração apresenta risco para transmissão do HIV. Ferimentos causados por vidro, latas, pregos ou outros objetos encontrados em vias públicas, por exemplo, geralmente não indicam a necessidade da PEP para HIV. Nesses casos, a principal preocupação costuma ser a prevenção do tétano e a avaliação clínica do ferimento.
Por isso, a avaliação médica é fundamental. É o profissional de saúde quem irá analisar cada situação e definir a conduta adequada.
O atendimento para avaliação de acidentes com material biológico (em que há contato com sangue ou outros fluidos corporais potencialmente contaminados) e indicação da PEP funciona em regime de porta aberta no Hospital São José. Não é necessário encaminhamento. Ao chegar à unidade, o paciente passa inicialmente por uma triagem de enfermagem e, em seguida, realiza avaliação médica e exames laboratoriais, quando indicados.
Para Cintia Rocha, que concluiu os 28 dias de tratamento sem apresentar efeitos colaterais, a experiência reforçou a importância da informação e da busca rápida por atendimento.
“O medo existe até saírem os exames e você ter a confirmação de que está tudo bem. Mas eu tive todo o suporte necessário. Hoje, além de redobrar a atenção nos procedimentos, também reforço para os colegas: se acontecer um acidente, procure ajuda imediatamente. Não espere”, conclui.
Mín. 24° Máx. 26°